Transtornos mentais estão cada vez mais presentes no trabalho

Por Raimundo Simão de Melo

Os transtornos mentais estão cada vez mais presentes no mundo do trabalho nos tempos atuais, os quais são provocados, como atestam médicos e psicólogos, pelo assédio moral e sexual, pelas jornadas exaustivas, exigência de metas abusivas, eventos traumáticos, perseguições aos trabalhadores por chefes despreparados e isolamento dos trabalhadores, entre outras formas engendradas com o objetivo de obtenção de mais lucro.

O meio ambiente do trabalho adequado é uma forma de prevenir a saúde mental do trabalhador. É preciso que se busque um meio ambiente do trabalho psicologicamente hígido a partir da relação entre os riscos psicossociais laborais e os transtornos mentais ocupacionais, cujo tema é de extrema atualidade e importância no campo das relações de trabalho, especialmente no momento em que vive o Brasil, diante de verdadeira epidemia de doenças ocupacionais, com destaque para o aumento das doenças mentais que atingem os trabalhadores.

Evitar transtornos mentais relacionados ao trabalho é desafio a ser enfrentado nas novas formas de organização do trabalho não apenas para garantir o direito dos trabalhadores à saúde, mas também como forma de diminuir os custos do trabalho e da Previdência Social, pois, no final das contas, trata-se de questão de ordem pública e de relevante interesse social.

Nesse sentido houve importante discussão do tema no 4º Seminário sobre Trabalho Seguro, realizado pelo TRT da 18ª Região em 23/9/2016, em cuja oportunidade disse a psicanalista Kátia Macêdo (doutora em Psicologia) que a intensa competitividade e o uso expressivo de novas tecnologias, além da cobrança de metas cada vez mais difíceis de serem alcançadas, acabam se tornando fatores de risco para o surgimento das doenças mentais.

Além disso, o uso da tecnologia acaba destruindo as barreiras entre trabalho e vida pessoal, o que torna o trabalhador constantemente conectado ao trabalho. Ela citou estatística do INSS de 2013, que aponta o transtorno mental como a terceira causa de afastamento do trabalho por mais de 15 dias.

A autonomia, a liberdade e o reconhecimento do trabalho são as grandes fontes de prazer para o ser humano, que permitem a descarga psíquica, a qual protege a pessoa do estresse, da fadiga e do adoecimento, mas, pelas novas formas de trabalho, onde o que se vê é desemprego, trabalho precário (intermitente, contratação a prazo, por tempo parcial, terceirização etc.), o prazer pelo trabalho anda cada vez mais distante e, em seu lugar, entram a depressão, a humilhação, o isolamento e o sofrimento das pessoas que, por isso, adoecem.

Ela discorreu sobre as estratégias que o trabalhador utiliza para se livrar do sofrimento. Uma delas é a aceleração do trabalho, quando a pessoa pensa que fazendo sua atividade mais rápido não vai ter tempo para pensar. O problema, segundo Katia Macêdo, é que a pessoa continua acelerada fora do trabalho. Outra estratégia seria a negação do sofrimento e a tendência a correr riscos desnecessários, causando acidentes. E a última seria o isolamento do profissional. O resultado de tudo isso são as patologias de sobrecarga, pós-traumáticas, a depressão e o suicídio.

Em razão dessa situação, disse a psicanalista Kátia Macêdo que, segundo estatísticas, 115 trabalhadores sofrem um acidente laboral a cada 15 segundos pelo sofrimento no trabalho. E ela apontou a proposta da clínica psicodinâmica do trabalho: sentar e conversar com os colegas sobre o sofrimento vivenciado pelo trabalhador.

Pela medicina falou a psiquiatra Maria Amélia Dias Pereira (doutora em Ciências da Saúde), para quem a investigação diagnóstica em saúde mental do trabalhador é a diferença entre o prescrito e o real no trabalho, que pode trazer o sofrimento. É o que a pessoa faz disso, das exigências físicas, mentais e psicoafetivas. Ela mencionou os sintomas mais frequentes dos transtornos mentais que atingem os trabalhadores, que podem ser fadiga, tensão muscular e distúrbios do sono e irritabilidade. Entre os transtornos mentais mais comuns dos trabalhadores estão a demência, o delirium, o transtorno cognitivo leve, o transtorno orgânico de personalidade, o alcoolismo crônico, o episódio depressivo, o transtorno de estresse pós-traumático, a síndrome da fadiga, a neurose profissional, a síndrome do esgotamento profissional (burnout) e o suicídio.

Para a psicanalista Kátia Macêdo, são as pessoas mais idealistas que mais desenvolvem transtornos mentais, porque nem sempre a realidade possibilita a realização de seus sonhos. Na tentativa de fazer sempre melhor, elas levam o trabalho para casa, vão sentindo exaustão emocional e acabam estafadas.

Outro fenômeno importante no campo das doenças mentais é o suicídio, que mata uma pessoa a cada três segundos no mundo, sendo que o Brasil ocupa o 8º lugar em números absolutos de suicídios e a 113ª posição na média mundial, considerada sua população, embora, segundo a palestrante, haja subnotificação dos casos. Em 2012, por exemplo, 11.821 pessoas se suicidaram no país.

As estratégias de prevenção de doenças mentais relacionadas ao trabalho incluem atividades física e mentais, como meditação, psicoterapia e medicamentos, quando indicados. No último caso, a prescrição médica vai depender da intensidade, duração e ocasião do sofrimento mental.

A verdade é que os ambientes de trabalho não andam bem e as pessoas estão cada vez mais doentes física e psicologicamente, cabendo às empresas e ao Estado adotarem medidas de prevenção e de precaução, uma vez que os prejuízos decorrentes desse adoecimento atingem os trabalhadores, seus familiares, as empresas e a já combalida Previdência Social.

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