Recessão, desemprego e novas alternativas: como os brasileiros lutam para fugir da atual crise econômica

Sem nenhuma Ordem ou Progresso, o último dia primeiro de maio ou Dia do Trabalhador, a despeito de geralmente ser marcado por celebrações entre trabalhadores, certamente no Brasil foi inesquecivelmente amargo. A melancolia se dá, substancialmente, pelo fato de que o feriado concebido para homenagear os mais diversos profissionais e a prática de seus ofícios ocorreu, inconvenientemente, em meio a uma das maiores crises contemporâneas.

Consequência direta da pandemia ocasionada pelo novo coronavírus, o desemprego, acrescido por uma histórica queda na economia mundial, reflete uma das mais cruéis facetas do sistema financeiro vigente em escala global. Só no Brasil, em comparação ao mesmo período de 2019, o Ministério da Economia estimou em seu último relatório oficial um aumento de mais de 150 mil pessoas desempregadas somente entre o mês de março e a primeira quinzena de abril.

O lamentável dado, apresentado pela equipe econômica nesta terça-feira (28), foi baseado no número de solicitações do seguro-desemprego, que chegou, dentre o intervalo aferido, a 804.538. Pode-se, então, afirmar que a recessão foi uma das responsáveis por salientar o contingente de 12 milhões de desempregados no país.

Poucos caminhos possíveis

A aflitiva conjuntura corrente prejudicou a construção de inúmeras carreiras e sonhos, impactando estruturas e planejamentos profissionais. Queda das bolsas, acréscimos sobre os juros e constante retração de investimentos tornaram-se fatores cruciais para o pleno funcionamento – ou não – de centenas de empreendimentos, que acabam por definir o corte de custos como solução vital. O saldo negativo, entretanto, recai sobre os funcionários.

Assim ocorreu com Wellington Teixeira Marques, de 33 anos, demitido em abril depois de passar os últimos 10 anos trabalhando para a mesma empresa. “A sensação é de desmoronamento… O desespero é contido pela perplexidade inicial”. Em 2010, Wellington foi contratado por uma grande agência paulista de comunicação e marketing para assumir a posição de auxiliar técnico, visando, desde o início, o crescimento profissional dentro do setor de informática e TI: “Concluí o ensino médio na Etec (Escola Técnica Estadual), arranjei alguns bicos para conseguir pagar cursos qualificativos [sic] voltados para minha área de interesse e enviei centenas de currículos até que me chamaram para ser auxiliar técnico; aceitei sem pensar duas vezes”.

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Com a demissão, o rapaz seguiu a tendência de captação monetária independente, e hoje, na tentativa de prover o sustento do filho e da mulher, que também está desempregada, ele atua como entregador de aplicativo. Em tempos de crise, histórias como a de Wellington são facilmente encontradas, revelando muita coragem e um exorbitante esforço daqueles que necessitam explorar, de fato, novas alternativas para se sustentar.

Um mercado de sobrevivência

Segundo estimativa apresentada em outubro do ano passado no Portal do Empreendedor, conduzido pela Secretaria Especial da Micro e Pequena Empresa e pela Receita Federal, cerca de 6,5 milhões de brasileiros se protocolizaram como microempreendedores individuais (MEI), categoria que compreende os indivíduos que operam de maneira autônoma e faturam até R$ 60 mil por ano. Essa crescente representa muito bem os agigantados indicadores de informalidade e desemprego, uma vez que operam como verdadeiros termômetro da busca por novas opções de rentabilidade.

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Bruna, mulher de Wellington, compõe uma fração dessa parcela: desempregada há dois anos, a ex recepcionista do conjunto hospitalar Mandaqui hoje ganha a vida como cabeleireira e manicure domiciliar. O entregador elucidou perfeitamente a construção da nova ordem de empreendedores ao dizer que “quando as portas da formalidade se fecham e o desespero bate, acabamos apelando para tudo aquilo que temos em nosso alcance, seja a astúcia, criatividade ou talento […] Felizmente tínhamos o recurso necessário para a compra de equipamentos, e minha mulher pode construir seu salão de beleza portátil; o que não é o caso da grande maioria”, finalizou.

A internet como recurso

Esse empenho econômico fomentou o desenvolvimento de produções individuais, e a internet passou a ser uma importante ferramenta para gerir os negócios. Para se deparar com a progressiva luta financeira, basta uma simples pesquisa em qualquer rede social: venda de marmitas caseiras, bolos de pote, confecção de roupas e itens da moda, produção de conteúdos digitais e outras centenas de opções em um scroll infinito – não só a vitrine, os ambientes digitais fornecem um leque de livre publicidade e conexões interpessoais.

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Bruna é exemplo desse estado, uma vez que “utiliza o WhatsApp como principal plataforma para gestão de seu micro empreendimento e o Instagram como meio de marketing”.

Projeções em tempos de crise sanitária

No dia 24 de abril, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) apresentou o Boletim Macro, fornecendo ao público as mais recentes projeções sobre o mercado de trabalho.

Segundo o documento, suprimidas as ações governamentais, como o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, a soma dos rendimentos totais dos brasileiros (salários, benefícios e assistências) terá uma baixa de 10,3% – com o auxílio emergencial a queda é de 5,2%. Contabilizando ou não o subsídio federal, essa será a maior baixa desde 2003, ano em que o Ibre-FGV foi iniciado.

O desemprego também deve registrar o pior resultado já catalogado pelo documento (este sucedido desde de 1981), atingindo a média de 17,8%.

 

Fonte: www.jornalcruzeiro.com.br

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