Pandemia reforça importância do SUS

Nascido junto com a Constituição de 1988, o SUS é o maior sistema público de saúde do mundo, que assiste a mais de 160 milhões de pessoas, com capilaridade em todo o território nacional. Apesar da estrutura robusta de acolhimento, o serviço, volta e meia, se torna alvo de críticas e, não raramente, alguns setores se mobilizam para defender sua extinção.

Porém, nesta crise sanitária histórica que o País enfrenta, o SUS voltou a reforçar sua importância, dando resposta rápida para ampliar sua estrutura e garantir, da melhor forma possível, o tratamento dos pacientes atingidos pelo novo coronavírus, de maneira gratuita e universal.

A forte atuação do sistema mereceu reconhecimento até mesmo do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que declarou só ter tomado ciência da dimensão do SUS com a pandemia. É evidente que o serviço, cronicamente subfinanciado, apresenta falhas, mas boa parte da classe política e da população têm compreendido que, graças à existência deste sistema, milhares de brasileiros afetados pela Covid-19 estão tendo suas vidas salvas.

“Sem o SUS, certamente, teriam morrido pelo menos dez, vinte vezes mais pessoas do que morreram até agora, porque elas não teriam como pagar o tratamento. Teríamos mortes em massa”, analisa o médico e ex-deputado estadual Pedro Tobias. Para se ter ideia, conforme reportagem publicada pela revista Time, um paciente nos Estados Unidos, que estava sem plano de saúde e contraiu o novo coronavírus, relatou ter recebido uma fatura de US$ 34,9 mil (o equivalente a quase R$ 175 mil) ao ter alta do hospital.

A relevância do SUS é referendada por outros especialistas ouvidos pela reportagem, como o professor Gonzalo Vecina Neto, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), considerado pela revista HealthCare Management uma das cem personalidades mais influentes da área no País. “Assim como no Brasil, a mesma coisa está acontecendo na Europa, em países como a Itália, Espanha, Inglaterra. Eles estão descobrindo que é preciso rever o nível de prioridade que é dado ao sistema de saúde público, melhorar a capacidade de financiamento”, pontua ele, que também é ex-secretário municipal de Saúde de São Paulo, ex-superintendente do Hospital Sírio Libanês e um dos mentores e primeiro presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

REDIRECIONAMENTO

Vecina explica que, em razão da pandemia, recursos foram rapidamente direcionados para o SUS, o que permitiu a ampliação da capacidade de internações em curto espaço de tempo. Para se ter ideia, em março, o sistema contabilizava 14.869 leitos de UTI. Dois meses depois, o número subiu para 19.564, elevando o índice de 7 para 9 leitos por 100 mil habitantes.

“Houve a realocação de leitos gerais para UTIs, além da criação de leitos em hospitais de campanha. Foi um esforço muito grande, mas, mesmo assim, diante da dimensão da pandemia, a gente sabe que não está sendo suficiente”, analisa.

Como medida de comparação, ele cita os números do setor privado, que acumula 15.754 leitos de UTI para 48 milhões de brasileiros que possuem planos de saúde – uma média de 32,8 leitos por 100 mil habitantes. Mesmo assim, ele reforça a importância do sistema público, de quem 77% da população depende para todo tipo de cuidado de saúde.

“Além disso, o SUS é responsável por 95% dos transplantes de todo o Brasil; por mais de 95% das hemodiálises – e são 140 mil brasileiros em hemodiálise; por oferecer medicação a 100% dos 8 mil hemofílicos; por tratar mais de 800 mil pacientes com Aids”, enumera, destacando, ainda, como evidências da robustez do SUS o sistema nacional de vacinação e o fato de o serviço ser o único a oferecer atendimento para pessoas picadas por animais peçonhentos no País.

Douglas Reis/JC Imagens

Representantes dos usuários, Lélio Munhoz fala sobre a aquisição de testes para a Covid

Diretora do Departamento Regional de Saúde (DRS-6), órgão vinculado à Secretaria de Estado da Saúde, Doroti da Conceição Vieira Alves Ferreira comenta que, diante da condição sanitária extrema trazida pela pandemia, o SUS ganhou significativo aporte financeiro vindo do Ministério da Saúde, que incrementou os repasses de recursos para a ampliação dos serviços desde a atenção básica até a altamente especializada. “O ministério repassa dinheiro até para hospitais filantrópicos especializados, como unidades oncológicas, exemplo do Amaral Carvalho, ou aquelas que lidam com saúde mental, por exemplo. São verbas carimbadas para a Covid, ou seja, para que estes pacientes que já realizam outros tratamentos possam ser isolados em leitos clínicos e receber todos os cuidados, quando infectados pelo novo coronavírus”, completa.

Representante dos usuários, Lélio Henrique Munhoz, que é presidente do Conselho Gestor da Unidade Básica de Saúde do Jardim Bela Vista e do Conselho Gestor da Casa da Mulher de Bauru, destacou, ainda, o incremento de repasses federais e estaduais para a aquisição de testes rápidos de diagnóstico da Covid-19. Com isso, não apenas os pacientes pertencentes ao grupo de risco, mas também os que apresentam sintomas característicos da doença, passaram a ser submetidos ao exame.

“Isso ajuda a mapear melhor o nível de contágio do coronavírus na cidade. É algo muito importante. Além do tratamento, a maioria das pessoas não teria condições sequer de pagar o próprio teste”, descreve. No dia 25 de julho, inclusive, a Prefeitura de Bauru fará novo mutirão de testes para a Covid-19. Desta vez, a ação será no Recinto Mello Moraes e contemplará sintomáticos e assintomáticos.

 

Depois da Covid-19, investimento no sistema precisará ser reforçado

Aceituno Jr.

Doroti Ferreira, diretora do DRS-6: “No primeiro ano pós-pandemia, penso que teremos de trabalhar com mutirões de exames, consultas e cirurgias”

Os especialistas ouvidos pelo JC são unânimes em afirmar que o financiamento do SUS precisará ser incrementado após a pandemia, já que prioridade dada atualmente ao tratamento de pacientes com Covid-19 levou à suspensão temporária de muitos atendimentos e procedimentos não urgentes relacionados a outras doenças, como cânceres e problemas cardíacos e ortopédicos.

Diretora do Departamento Regional de Saúde (DRS-6), Doroti da Conceição Vieira Alves Ferreira reconhece que já havia uma demanda represada de pacientes mesmo antes da pandemia. Porém, em razão do enfrentamento do novo coronavírus, o problema da fila de espera se agravou e precisará ser minimizado, ao menos inicialmente, com a realização de mutirões. Tais ações, contudo, demandam investimento financeiro.

“Imagino que a fila tenha triplicado, então, a preocupação é enorme. No primeiro ano pós-pandemia, penso que teremos de trabalhar com mutirões de exames, consultas e cirurgias, para redução desta demanda o mais rápido possível”, analisa.

O prejuízo à população com outras patologias já está sendo evidenciado, contudo, mesmo antes do fim da pandemia. Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia, as mortes em domicílio por problemas cardiovasculares, como AVC e infarto, aumentaram 30% de março a maio deste ano, na comparação com o mesmo período de 2019.

REVISÃO

Na avaliação da SBC, a alta pode ter sido ocasionada por três principais fatores: o acesso limitado a hospitais onde houve sobrecarga do sistema, a redução da procura por cuidados médicos devido ao medo de contrair Covid-19 e o isolamento social, que prejudica a detecção de sintomas.

O professor Gonzalo Vecina Neto, da Faculdade de Saúde Pública da USP, revela que este gargalo é resultado do subfinanciamento histórico do SUS (leia mais ao lado). “Também há um problema de gestão, que não é exclusividade do sistema. Temos, no Brasil, um problema de gestão na administração pública como um todo”, acrescenta.

Vecina Neto, assim como Doroti, concordam que haverá necessidade de reformar a Emenda Constitucional n.º 95, aprovada em 2016, que estabeleceu o congelamento dos gastos públicos por 20 anos. Por conta deste novo regime fiscal, o prejuízo ao SUS chegou a R$ 20 bilhões em 2019.

Conforme estimativa do Conselho Nacional de Saúde, nesses 20 anos de congelamento, o prejuízo para o sistema poderá chegar à ordem de R$ 400 bilhões. “Se não houver a revogação da EC 95, o SUS vai sofrer tremendamente, com graves consequências para os serviços prestados no País”, conclui Vecina.

A reportagem do JC tentou, por dois dias consecutivos, falar com o secretário municipal de Saúde, Sérgio Henrique Antonio, para discorrer sobre a importância do SUS em termos locais. Contudo, por meio da assessoria de comunicação da pasta, a informação foi de que não seria possível conceder a entrevista.

 

Ainda falta financiamento

No País, o professor Gonzalo Vecina Neto cita que o setor privado de saúde gasta, em média, R$ 3.500,00 ao ano por paciente, enquanto o sistema público desembolsa apenas R$ 1.500,00 anuais. Na comparação com os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ele explica que o Brasil também fica atrás.

Na média, estes países investem entre 10% e 15% do Produto Interno Bruto (PIB) em saúde, enquanto o Brasil empenha 9,5% do PIB. E, na Europa, entre 70% e 80% do total de gastos são direcionados à saúde pública. Em território nacional, o índice não passa de 45% – o percentual restante é oriundo de planos de saúde e ou de gastos particulares (do bolso dos pacientes).

“Considerando o exemplo dos países europeus, teríamos de dobrar o financiamento para melhorar a assistência de saúde”, frisa.

Ainda de acordo com Vecina Neto, o Brasil financia, já levando em conta os reforços advindos da pandemia, o equivalente a somente um terço do número de leitos de UTI considerado ideal. “Hoje, temos nove leitos por 100 mil habitantes, enquanto deveríamos ter de 27 a 30 leitos por 100 mil. E isso em condições sanitárias consideradas normais”, completa.

 

‘A pandemia tende a atingir os mais vulneráveis’

Malavolta Jr./JC Imagens

Telma Gobbi ressalta a relevância do SUS no cenário atual

O SUS ganha especial relevância durante o enfrentamento da Covid-19 porque a pandemia tende a atingir com maior intensidade os mais pobres, conforme destaca a médica e vereadora de Bauru Telma Gobbi. A maior vulnerabilidade decorre do fato de estes grupos serem os que têm menos acesso a saneamento básico, incluindo a água necessária para higienização diária.

Também são os mais afetados pelo desemprego e que precisam, por consequência, sair às ruas por sobrevivência. “Muitos convivem em imóveis pequenos com muitas pessoas, o que aumenta o risco de contágio, e enfrentam maior dificuldade para ingressar no sistema de saúde de uma forma geral. Com isso, é maior a chance de terem comorbidades que não foram tratadas ao longo do tempo e que podem levar a um quadro grave após a infecção pelo novo coronavírus. E estas são pessoas que dependem exclusivamente do SUS”, comenta.

Fonte: JCNet

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *